Uma de nós tem três filhos e dois deles são esquisitos com a comida. A de onze anos é o caso extremo: qualquer coisa que não seja doce, antes da escola, é uma negociação que ninguém ganha.
O essencial
- A recusa de alimentos novos atinge o pico entre os 2 e os 6 anos e é uma fase normal do desenvolvimento, não um problema de educação.
- Uma criança pode precisar de ver o mesmo alimento dez a quinze vezes antes de o provar. A maioria das famílias desiste muito antes disso.
- A pressão para comer é a estratégia mais usada e uma das que menos resulta.
- Nenhum suplemento resolve a recusa alimentar. Quem lhe disser o contrário está a vender-lhe qualquer coisa.
Isto é uma fase, e tem nome
Chama-se neofobia alimentar: a rejeição de alimentos desconhecidos. Aparece por volta dos 2 anos, é mais intensa entre os 2 e os 6, e vai diminuindo depois.
Isto é mais comum do que parece, e a maior parte do desgaste à mesa não vem da criança. Vem da ideia de que alguma coisa correu mal.
Ao mesmo tempo, o apetite de uma criança pequena é genuinamente irregular. O ritmo de crescimento abranda depois do primeiro ano, e com ele abranda a fome. Uma criança que comia tudo aos 14 meses e come metade aos 3 anos não mudou de personalidade. Mudou de velocidade de crescimento.
O que ajuda
Repetir sem obrigar. A exposição repetida é o mecanismo com mais apoio na literatura. Pôr no prato, não comentar, retirar sem drama, repetir noutro dia. Dez a quinze vezes é o intervalo habitual, e "provar" pode começar por tocar, cheirar ou lamber.
Separar os papéis. Um princípio simples e muito útil: os adultos decidem o quê, quando e onde se come. A criança decide se come e quanto. Isto tira a mesa do terreno da negociação, que é onde as refeições costumam descarrilar.
Comer junto e comer o mesmo. As crianças copiam. Um adulto a comer legumes sem comentar faz mais do que qualquer explicação sobre legumes.
Servir pouco. Um prato cheio de uma coisa que não se quer comer é uma montanha. Uma colher é uma decisão pequena. Pode sempre repetir.
Manter o alimento recusado à mesa. Não em destaque, não como prova. Só presente. A familiaridade faz metade do trabalho.
O que quase nunca resulta
Insistir, negociar ou recompensar. "Mais três garfadas" transforma a refeição numa transação. E a sobremesa como prémio ensina exatamente aquilo que não se quer ensinar: que o brócolo é o preço e o bolo é o valor.
Cozinhar um prato alternativo. Compreensível às oito da noite, e garante que amanhã há outra vez dois jantares.
Esconder legumes em purés para sempre. Como forma de variar a alimentação num dia difícil, tudo bem. Como estratégia única, a criança nunca aprende a reconhecer nem a aceitar o alimento, e o objetivo era esse.
Falar muito sobre comida à mesa. Quanto mais a recusa é comentada, mais útil ela se torna para a criança.
Recusas específicas, que são um problema diferente
"Não come nada" quase nunca é literal. Normalmente é uma recusa concreta, e cada uma tem uma resposta diferente.
Não come legumes nem fruta. A mais comum e a que mais preocupa. A fruta costuma voltar antes dos legumes porque é doce. Continue a servir, em porções pequenas, sem comentar, e ofereça crus e cozinhados, porque a textura pesa tanto como o sabor.
Não come carne. Muitas vezes é textura, não sabor: a carne exige mais mastigação. Veja se aceita ovo, peixe, leguminosas ou queijo antes de assumir que é um problema de proteína.
Não come na creche ou na escola, mas come em casa. Muito frequente e raramente um problema alimentar. Ambiente novo, ritmo diferente, e a criança a decidir onde se sente segura. Costuma resolver-se sozinho. Pergunte à educadora como corre a refeição antes de mudar seja o que for em casa.
Come, mas não come sozinha. Isto é autonomia, não apetite. É uma fase normal, é chato, e resolve-se deixando comer sozinha mesmo quando é mais lento e mais sujo do que dar à boca.
Quando vale a pena falar com o médico
A maior parte da recusa alimentar resolve-se com tempo e paciência. Marque uma consulta se houver perda de peso ou uma curva de crescimento que se afasta do habitual, se a variedade for muito reduzida e continuar a encolher, se houver engasgamento ou vómito repetidos, ou se a hora da refeição estiver a causar sofrimento real à criança ou à família.
Isto não é uma lista para se autodiagnosticar em casa. É uma lista de razões para deixar de esperar e marcar.
E os suplementos?
A pergunta aparece sempre, por isso aqui vai a resposta com clareza, ainda que não nos favoreça.
Um multivitamínico não resolve a recusa alimentar. Não abre o apetite, não alarga a variedade e não substitui o processo lento de habituação descrito acima. Se uma marca lhe sugerir o contrário, está a aproveitar-se do cansaço de uma quarta-feira à noite.
O que um multivitamínico pode fazer é bastante mais modesto: cobrir parte da variedade em falta enquanto o resto acontece. Se isso compensa depende inteiramente da criança, e é uma conversa para ter com o pediatra, não com uma marca.
Nós vendemos um. E continuamos a achar que a resposta certa a "o meu filho não come" começa por repetir sem obrigar, comer juntos e ter paciência durante mais tempo do que parece razoável.
Fontes
- Literatura sobre neofobia alimentar e exposição repetida em idade pré-escolar
- Modelo de divisão de responsabilidades na alimentação infantil (Satter)
- Direção-Geral da Saúde, alimentação saudável
Escrito por Lina e Stanislava, fundadoras da MyDailyPocket. Isto está aqui para ser útil e não para substituir o pediatra ou o médico de família.